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Estamos Aqui! Bandeirante: um personagem em debate #pracegover

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Descrição da exposição “Estamos Aqui: Bandeirante: um personagem em debate"

Apresentação geral:

A exposição “Bandeirante: um personagem em debate” é formada por onze painéis retangulares (146 cm largura x 172 cm altura). Eles estão dispostos lado a lado e fixados em tapumes azuis que cercam a escadaria central na área externa do edifício-monumento.

Para que a exposição possa ser fruída nas duas direções, tanto de quem vem da esquerda como da direita, o primeiro e o último painel são iguais e cumprem a função de apresentar o tema da exposição. 

Cada painel apresenta uma ou mais imagens acompanhadas de textos escritos em letras brancas sobre uma marca d’água cinza. 

 

Painel 1:

537

 

Fotografia colorida de um detalhe da escultura em mármore branco do bandeirante Fernão Dias. A escultura está sob um pedestal e a foto a enquadra da cintura para baixo. Neste ângulo, podemos observar as botas, o cinto e uma das mãos do bandeirante apoiando-se sob uma arma de cano longo.  

À esquerda, sobreposta a imagem há uma caixa de texto apresentando a exposição:

Bandeirante: um personagem em debate 

Hoje, o Museu do Ipiranga convida você a discutir os bandeirantes e a maneira como eles foram representados em esculturas e pinturas pertencentes ao seu acervo. Nessas obras de arte, os bandeirantes foram representados como heróis, que teriam alargado as fronteiras do Brasil colonial e liderado a busca por ouro e diamantes no interior do país. 

Ao observar suas poses, seus rostos, suas roupas e seus gestos, você perceberá que essas imagens não ressaltam muitos dos atos realizados por esses homens. Não estão presentes, por exemplo, sinais claros da violência que praticaram contra os índios e os quilombolas. 

Essas obras, encomendadas para o Museu entre 1903 e 1935, são bastante polêmicas na atualidade. Por meio delas, podemos perceber que as narrativas da história de uma sociedade são feitas de escolhas, pois a história não é uma reconstrução neutra do passado. 

As formas de narrar a história mudam de acordo com os debates de cada tempo. E os acervos de museus abrem possibilidades para aguçar nosso olhar sobre o passado a partir do presente. Você aceita nosso convite para refletir sobre os bandeirantes?

 

Legenda:

Fernão Dias Paes Leme, o Governador das Esmeraldas (detalhe), 1922, Luigi Brizzolara, mármore, 153 x 370 cm, acervo do Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga).

 

Painel 2:

538

 

Reprodução de um desenho, em papel amarelado pelo tempo, de dois bandeirantes. Os dois homens são brancos, possuem barba, portam armas e usam uma indumentária muito associada a esses personagens, como gibão, chapéu e botas. Estão em pé, levemente de perfil. O bandeirante, à esquerda, está com o corpo e perfil voltados para o mesmo lado e faz um gesto com uma das mãos. O da direita está com o corpo voltado na direção oposta ao primeiro e tem uma arma de cano largo apoiada num dos ombros. Ambos olham para a esquerda.   

No quadrante inferior, há uma caixa de texto com marca d’água cinza e letras brancas, com o seguinte texto:

Quem eram os bandeirantes? 

Os bandeirantes foram líderes paulistas que viveram entre os séculos 16 e 18. Sua denominação vem das “bandeiras”, expedições militares chefiadas por esses líderes, que entravam pelos sertões para escravizar índios e localizar minas de metais e pedras preciosos. 

Os padres jesuítas e as autoridades portuguesas deixaram muitos relatos sobre a violência dos bandeirantes e a ferocidade com que atacavam missões religiosas, aldeias indígenas e quilombos. 

Não existem imagens desses homens produzidas na época em que eles viveram. O desenho que vemos aqui, por exemplo, foi produzido no começo do século 20 e foi feito para fixar a aparência que os bandeirantes teriam. Muitas imagens que você verá nesta exposição são semelhantes a essa, pois não representam conflitos e os atos de violência que os bandeirantes praticaram no passado.

Legenda:

Desenho nº. 3. Bandeirantes - Século XVII, sem data, José Wasth Rodrigues. Grafite e tinta nanquim sobre papel vegetal, 39,5 x 54,5 cm, acervo do Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga).

 

Painel 3:

539

 

Reprodução da pintura Domingos Jorge Velho e o loco-tenente Antônio Fernandes de Abreu. Os dois homens são brancos, portam armas e usam chapéus. Estão em pé, de frente para o observador, olhando em sua direção. Domingos Jorge Velho está em primeiro plano à esquerda, possui barba espessa e uma postura imponente, exibindo duas armas presas ao seu cinturão. Uma capa preta e vermelha cobre seu ombro e braço esquerdo, enquanto sua outra mão apoia-se sobre uma arma de cano longo.  O loco-tenente, à direita, possui bigode e aparenta ser mais jovem que a outra figura. Atrás dos dois, avista-se uma paisagem de densa vegetação e o céu azul. 

No quadrante inferior está a caixa de texto:

Onde estão os sinais da violência? 

A pintura que está reproduzida nesse painel foi feita pelo pintor Benedito Calixto em 1903, para ser exposta no Museu do Ipiranga. Ela representa dois bandeirantes. O que está à frente seria Domingos Jorge Velho, o líder da expedição que destruiu o Quilombo de Palmares em 1695. Veja como ele está representado. Quais elementos chamam sua atenção? Você acha que a pintura revela ou esconde a violência desse episódio? 

Legenda:

Domingos Jorge Velho e o loco-tenente Antônio Fernandes de Abreu, 1903, Benedito Calixto, óleo sobre tela, 140 x 99 cm, acervo do Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga).

 

Painel 4:

540

 

Reprodução da pintura Ciclo da caça ao índio, no qual figura em primeiro plano o bandeirante Matias Cardoso de Almeida. Ele está em pé, sobre um relevo formado por rochas. Sua indumentária é composta por gibão, chapéu e cinto. Com a mão esquerda ele segura uma arma de cano largo que está apoiada ao chão. Sua mão direita apoia-se na cintura sobre uma pistola que está presa ao cinto. Ao fundo, avista-se alguns índios e uma densa mata. 

No mesmo painel, na lateral esquerda, há dois retratos: um de Luís XIV e outro de Dom João VI. Ambos os monarcas estão com a mesma pose que, inclusive, é muito semelhante à pose do bandeirante: corpo levemente de perfil, com a mão direita portando um cetro apoiado em uma almofada e o braço esquerdo sustentado na cintura, além de uma das pernas a frente da outra.

No quadrante superior encontra-se o texto:

Uma pose para a construção do herói. 

Não existem retratos de bandeirantes feitos no tempo em que esses paulistas viveram. Para dar corpo, rosto e roupas a esses personagens, os artistas do século 20 se inspiraram em pinturas europeias dos séculos 17 e 18. O retrato imponente de Domingos Jorge Velho, por exemplo, foi baseado na pose majestática dos retratos de reis, como Luís XIV da França e João VI de Portugal, Brasil e Algarves. A violência do personagem era, assim, suavizada pela pose dos reis, calma e imponente.

Legendas:

Ciclo da caça ao índio (com Matias Cardoso de Almeida ao centro), 1925, Henrique Bernardelli, óleo sobre tela, 233,7x159cm, acervo do Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga).

Luís XIV, 1701, Hyacinthe Rigaud, óleo sobre tela, 277 x 194 cm, acervo do Museu do Louvre, Paris

D. João VI, 1817, Jean-Baptiste Debret, óleo sobre tela, 60 x 42 cm, acervo do Museu Nacional de Belas Artes/Ibram/Minc, Rio de Janeiro.

 

Painel 5:

541

 

Fotografia colorida da escultura em bronze do bandeirante Borba Gato. Ele possui barba, está em pé e aparece de corpo inteiro. Sua indumentária é composta por uma capa que cobre seu ombro e braço direito, além de botas e um cinto onde está embainhado um facão. Porta, também, uma arma de cano longo sobre a qual ele apoia sua mão esquerda.

No quadrante inferior, o texto:

Heróis pacíficos? 

Os bandeirantes estão representados em diversas obras do acervo do Museu. Elas foram encomendadas principalmente por Affonso Taunay, um historiador que foi o diretor da instituição entre 1917 e 1945. Para ele, os bandeirantes eram personagens centrais do passado de São Paulo e do Brasil. Por isso, encomendou 5 pinturas e 8 esculturas com imagens de bandeirantes para decorar o hall e a escadaria do Museu. Embora estejam representados sempre portando muitas armas, os artistas não apresentaram esses bandeirantes em situação de conflito. Observando as imagens, você considera que eles seriam heróis pacíficos? 

Legenda:

Manuel de Borba Gato, 1921, Nicola Rollo, bronze, medidas 140cm x 250cm, acervo do Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga).

 

Painel 6:

542

 

Fotografia colorida de um detalhe da escultura em mármore branco de Fernão Dias. A foto focaliza o rosto do bandeirante de perfil voltado para a direita. Neste recorte, vê-se parte da aba de seu chapéu que cobre seus cabelos e orelha. Ele possui nariz aquilino, uma barba espessa que cobre seu pescoço e dirige seu olhar para baixo.  

No quadrante inferior temos o seguinte texto:

Europeus ou mestiços? 

Embora parte dos bandeirantes também descendesse de índios, as obras de arte que os retratam quase sempre os representam como europeus. Cabelos ondulados, barbas espessas e rostos longos são os sinais dessa caracterização, que apaga a origem mestiça dos bandeirantes e das elites paulistas que deles descendiam. Assim, a escolha dos bandeirantes retratados quase sempre priorizou os que tinham nascido em Portugal, como Raposo Tavares, ou que tinham apenas antepassados europeus, como Fernão Dias.

Legenda:

Fernão Dias Paes Leme, o Governador das Esmeraldas (detalhe), 1922, Luigi Brizzolara, mármore, 153 x 370 cm, acervo do Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga).

Painel 7:

543

 

Fotografia colorida da escultura em mármore branco do bandeirante Raposo Tavares. Ele possui barba, veste camisa de manga longa e calça e usa chapéu de abas largas e uma capa. Enquanto sua mão esquerda segura uma de suas armas, a direta ergue-se na altura de sua fronte, como ele estivesse mirando o horizonte.

Ao centro há uma caixa de texto com marca d’água cinza e letras brancas:

Horizontes turbulentos 

O bandeirante Raposo Tavares é conhecido por ter liderado uma expedição que partiu dos sertões paulistas até a Amazônia, percurso esse que serviu para a definição das fronteiras do Brasil. O gesto da estátua que representa sua figura reforça o olhar para o Oeste, na mesma direção que teria seguido sua bandeira. Esculpir sua imagem com a tranquilidade desse olhar contemplativo foi uma opção, em vez de representá-lo tenso, lutando nas batalhas que participou para a destruição das missões jesuíticas da América Espanhola.

Legenda:

Mestre de Campo Antônio Raposo Tavares (detalhe), 1922, Luigi Brizzolara, mármore, 153 x 370 cm, acervo do Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga)

 

Painel 8:

544

 

Fotografia colorida de detalhe da escultura em mármore branco do bandeirante Fernão Dias. A foto focaliza seu rosto e busto de frente. Ele usa chapéu de abas largas e possui uma barba espessa que cobre seu pescoço. Seu olhar compenetrado dirige-se a uma pedra, que julga ser preciosa, ele a segura com uma das mãos na altura de seu peito.

No quadrante inferior à esquerda há uma caixa de texto:

Caçador de esmeraldas ou escravizador de índios? 

O bandeirante Fernão Dias Paes recebeu o apelido de “caçador de esmeraldas”, pois é muito lembrando por suas tentativas de achar pedras preciosas nos sertões do Brasil. Além disso, esse bandeirante participou de diversas expedições para captura de índios, que eram forçados a trabalhar nas fazendas paulistas de trigo, milho, mandioca ou marmelo. Apesar de representá-lo fortemente armado, a escultura que o retrata suaviza seu passado. O destaque de seu gesto reforça seu olhar encantado, dirigido à turmalina que acreditava ser uma esmeralda.

Legenda:

Fernão Dias Paes Leme, o Governador das Esmeraldas (detalhe), 1922, Luigi Brizzolara, mármore, 153 x 370 cm, acervo do Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga).

Painel 9:

545

 

Reprodução de um detalhe da pintura Combate de botocudos em Mogi das Cruzes. Ao centro, há um bandeirante que dispara seu bacamarte em direção à direita. A sua volta há troncos de árvores e atrás dele, há um grupo de homens também armados, um deles atira na mesma direção.  

No quadrante superior, além do texto, estão dispostas lado a lado a reprodução da gravura em preto e branco que inspirou esta obra e uma reprodução da pintura completa. Com exceção de pequenos detalhes, as duas imagens são muito semelhantes. 

Na imagem inteira da pintura, o ângulo aberto apresenta a mata com árvores de fortes troncos e raízes, além de uma diversidade de plantas. No canto inferior direito há um outro bandeirante armado e, no outro extremo, jaz um índio morto no chão em meio às plantas e raízes. Acima dele, no canto superior direito, um outro indígena em cima de uma árvore mira com seu arco e flecha na direção dos bandeirantes. Densas nuvens de fumaça pairam no ar.

Acima das imagens, no quadrante superior o texto:      

Bandeirantes no século 19? 

Essa pintura de Oscar Pereira da Silva é uma das raríssimas representações de bandeirantes em combate e foi a única cena de batalha envolvendo esses personagens encomendada para o Museu do Ipiranga. Como não existiam imagens dos bandeirantes produzidas nos séculos 17 e 18, época em que viveram, o artista inspirou-se em uma gravura feita no século 19 para realizar sua tela. Ela apresenta soldados índios de Mogi das Cruzes combatendo índios botocudos no Espírito Santo por volta de 1820. E foi a partir desta gravura que o chapéu de aba larga, o bacamarte e o gibão com losangos tornaram-se parte da imagem do bandeirante criada no século 20.

Legendas:

Combate de botocudos em Mogi das Cruzes, 1920, Oscar Pereira da Silva, óleo sobre tela, 100 x 150 cm, acervo do Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga).

Selvagens civilizados, soldados índios de Mogi das Cruzes (Província de São Paulo) combatendo botocudos, 1834, Jean-Baptiste Debret (publicada em: DEBRET, Jean-Baptiste. Voyage Pitoresque et Historique au Brésil... Paris, Firmin Didot, 1834, vol. 1.), acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

 

Painel 10:

548

Fotografia colorida do monumento à Borba Gato. A escultura mede treze metros contando com o pedestal sobre o qual ela está. O bandeirante possui barba e está representado com gibão, chapéu, botas e exibe uma arma de cano longo em pé junto ao seu corpo, apoiada ao chão. Há uma faixa marrom com letras azuis com os seguintes dizeres: JULGAMENTO POPULAR DO BORBA GATO. Em cima do pedestal há dois rapazes e uma moça, sentados bem junto aos pés da estátua. No canto inferior à direita um homem de camisa vermelha fala num microfone enquanto lê um papel.

Ao centro, há uma caixa de texto

Bandeirantes em questão 

Muitos questionamentos, feitos principalmente por movimentos sociais, têm condenado a glorificação dos bandeirantes. Nesses debates, a exaltação daqueles antigos paulistas como heróis atenua ou esconde a violência que praticaram contra índios e negros no período colonial. Mas as homenagens aos bandeirantes ainda permanecem em nomes de estradas, prédios do governo, avenidas e em monumentos erguidos nas praças. O que você pensa sobre isso?

Lidar com a memória construída em torno desses personagens controversos é uma das tarefas de um museu de história. Considerando que a memória também é uma forma de confronto e disputa, o museu deve colaborar para esta debate, refletindo sobre seu acervo e incorporando novos olhares que questionem antigas e novas formas de interpretar o passado - e, por que não, que questionem também o presente. 

Legenda:

Encenação do Julgamento Popular de Borba Gato. Manifestação promovida por coletivos de artistas, ativistas e movimentos sociais. Santo Amaro, São Paulo, 19 de abril de 2008. Autora: Kátia Portes