O Edifício-Monumento está fechado para obras de restauro e modernização

Homens não são fotografados de perfil, só as mulheres se deixavam registrar nesta pose

Hoje a exposição do corpo feminino está muito associada à sexualidade – imagens de mulheres em lingeries, biquínis, roupas cavadas são exploradas em publicidades de todo tipo. A explicação para a exibição exaustiva de partes do corpo da mulher está no machismo de nossa sociedade, responsável também pela exploração sexual de meninas, violência doméstica e tantas outras iniquidades. 

Um museu pode ser um lugar importante para aprendermos mais sobre o processo de diferenciação dos gêneros masculino e feminino. Assistindo ao vídeo Poses do 19, é possível vermos justapostos, em forma de animação, cerca de 1300 retratos de pessoas que frequentaram o ateliê do fotógrafo Militão Augusto de Azevedo na segunda metade do século XIX. 

Essas fotografias têm diferenças para os olhos de hoje muito sutis, mas que nos informam sobre como corpos de homens e mulheres já eram tratados de modo distinto.  Homens não são fotografados de perfil, só as mulheres se deixavam registrar nesta pose, em que se abre mão de mostrar o rosto de frente ou mesmo na rotação 3/4, lugar da identidade individual, para privilegiar as formas do corpo – o perfil, curvas da nuca e do quadril, volume do busto, do penteado e da saia. 

Em retratos de casais, os homens muitas vezes aparecem sentados e a mulher de pé. Poderíamos pensar que se sentar com espartilho e saias tão volumosas seria um desconforto maior do que ficar de pé. Mas não é esse o caso. As mulheres sabiam como se sentar usando todo esse aparato. Acontece que o acesso à cadeira é uma distinção que se dá mais ao homem do que à mulher. Sentar-se é um gesto de poder tradicionalmente associado ao chefe de estado, da igreja e da casa. 

A exibição do corpo feminino está associada a uma cultura que objetifica a mulher para além da sexualidade. Sua identidade é construída de modo difuso a partir da diluição do rosto, que compete com o resto do corpo, como podemos observar nos retratos de Militão. O mesmo processo se estende por meio da fusão do corpo feminino com o espaço da casa. Sobre esse último processo, um exemplo bem claro está no fato de que a roupa feminina pode combinar ou ser do mesmo material ou técnica de confecção da toalha de mesa, da cobertura do sofá ou da cortina. 

Assim, a publicidade de cerveja associada ao corpo feminino, que tanto pode nos incomodar, é apenas a face exagerada de algo muito mais abrangente e sutil.

 

Vânia Carvalho, vice-diretora do Museu Paulista da USP.