O Edifício-Monumento está fechado para obras de restauro e modernização

Leopoldina: independência e morte (estudo #2) - muito mais do que mãe e esposa

por Bárbara Reis

A estreia da peça contou com um debate crítico sobre o retrato histórico de Leopoldina, trazendo à tona aspectos ignorados da personagem

562 Leopoldina: independência e morte (estudo #2) / Foto: Gean Carlo Seno


A primeira apresentação de Leopoldina: independência e morte (estudo #2), peça-monólogo sobre a vida da Imperatriz dirigida por Marcos Damigo, foi seguida de um debate entre o diretor e dois historiadores, Paulo César Garcez Marins, pesquisador do Museu Paulista, e Paulo Rezzutti, biógrafo conhecido por seus estudos sobre personagens da história brasileira.

 

O espetáculo é o fragmento de uma peça que deve ser performada na íntegra no próximo ano. Neste estudo, ela fala de suas impressões sobre o Brasil no momento do desembarque no país, expressando fascínio e angústia. A peça termina em um monólogo que coloca a Imperatriz no fim de sua vida, refletindo sobre o que passou e trazendo à tona questões políticas e sociais que ainda perduram.

 

Baseado em diversos documentos encontrados ao longo dos anos, como diários, cartas e documentos oficiais, Damigo construiu uma narrativa que explicita a complexidade de Leopoldina, figura que foi historicamente retratada pelos estereótipos de mãe e esposa. “Por meio dessas cartas ignoradas, tentei trazer a estrategista que planejava por trás de seu marido”, contou o diretor.

 

564 Leopoldina: independência e morte (estudo #2) / Foto: José RosaelApós parabenizarem o diretor por suas escolhas ousadas ao retratar a Imperatriz, os historiadores discorreram sobre as mudanças no papel da mulher na sociedade brasileira. Paulo Garcez observou que a força feminina sempre foi essencial para sustentar a sociedade, ainda que seu poder se desse principalmente no ambiente doméstico, chefiando casas enormes sozinhas. O pesquisador também ressaltou que tendemos a “projetar insensivelmente” a rígida divisão de gênero dos séculos XIX e XX à toda a história, algo que não se confirma. “No Antigo Regime, isso não era tão claro. Havia mulheres na Academia de Letras e mulheres que comandavam nações inteiras”, ponderou, chamando a atenção ainda para o fato de o período republicano ter sido, ironicamente, cenário de muitos retrocessos nos direitos das mulheres, com algumas tendo seus direitos políticos cassados.

 

563 Leopoldina: independência e morte (estudo #2) / Foto: José RosaelO debate também explicitou as características particulares do contexto da Imperatriz Leopoldina que fizeram dela, de fato, uma mulher excepcionalmente sagaz politicamente. Seu pertencimento à dinastia Habsburgo, Casa Real austríaca, lhe proviu com uma educação excêntrica ao resto da recebida pelas mulheres da época: apesar do gênero feminino ser geralmente educado de forma mais limitada, a casa Habsburgo educava suas mulheres para serem governantes - o que, na prática, significava que elas estudavam todas as áreas do conhecimento, inclusive ciências exatas. A Imperatriz fazia parte de uma verdadeira família de estrategistas, tendo Maria Antonieta como sua tia e Maria Teresa de Habsburgo, coroada imperatriz após uma guerra contra a Lei Sálica, que permitia que apenas homens ascendessem ao trono, como avó. 

 

Assim, a visão de governante esteve presente em todos os seus passos. “Leopoldina vem ao Brasil com a esperança de voltar a Portugal algum dia, uma vez que ela deveria ser Rainha de Portugal, e não Imperatriz do Brasil”, observou Rezzutti. “Ela escolhe o Brasil devido a uma paixão pela dinastia, e não pelo país”. Segundo o biógrafo, ela teria percebido que seria mais fácil governar a colônia, uma vez que os movimentos dela e de seu marido na metrópole eram muito controlados pela Corte Portuguesa. Seu talento político não estava apenas nos pontos óbvios da manutenção do poder: ela também percebia a importância de “cerimoniais”, como parar para cumprimentar o povo nas ruas, para justificar a existência da monarquia. 

 

Além das origens austríacas, uma anomalia da legislação portuguesa também criou um cenário propício para Leopoldina e outras aristocratas de seu tempo. “Ela permitia que as mulheres herdassem e, enquanto solteiras, pudessem exercer a administração de seus bens e patrimônios”, comentou Paulo. “Elas eram protegidas por seu dinheiro”, afirmou. 

 

561 A discussão também atentou-se à representação feita de Leopoldina na peça. “Somos fascinados por representações ‘à inglesa’, mas a verdade é que não podemos reconstruir o passado perfeitamente”, observou Garcez. Os historiadores apontaram a inevitável subjetividade dos retratos históricos, e como eles refletem muito sobre a época na qual foram produzidos. “Estamos sempre colocando nossas questões do presente no passado. Ao ver a peça, eu vi o século XXI”, completou. Os debatedores ressaltaram que isso não é um defeito, mas um mérito: sempre falharemos na tentativa de reconstruir o passado, e um roteiro que opte por enfatizar certos aspectos históricos por um viés moderno pode contribuir muito mais para nossa educação e reflexão. 

 

 

Leopoldina: independência e morte é dirigida por Marcos Damigo, estrelada por Fabiana Gugli e conta com música de Ana Eliza Colomar. As próximas apresentações acontecerão no Museu do Ipiranga, às 15h, nos dias 11, 12, 18, 19, 25, 26/11, 2 e 3/12. 20 lugares, entrada gratuita (retirada de ingressos no Sesc Ipiranga 1h antes do espetáculo).

Saiba mais em <https://goo.gl/9WiKdQ>

 

Leopoldina: independência e morte (estudo #2) / Foto: Gean Carlo Seno
Leopoldina: independência e morte (estudo #2) / Foto: Gean Carlo Seno
Leopoldina: independência e morte (estudo #2) / Foto: Gean Carlo Seno
Leopoldina: independência e morte (estudo #2) / Foto: José Rosael
Leopoldina: independência e morte (estudo #2) / Foto: José Rosael
Leopoldina: independência e morte (estudo #2) / Foto: José Rosael